4. BRASIL 31.7.13

1. TRENS E METR SUPERFATURADOS EM 30%
2. LUTA PELA MEMRIA DA DITADURA EST EM PERIGO
3. NORA PROTEGIDA

1. TRENS E METR SUPERFATURADOS EM 30% 
Ao analisar documentos da Siemens, empresa integrante do cartel que drenou recursos do Metr e trens de So Paulo, o Cade e o MP concluram que os cofres paulistas foram lesados em pelo menos R$ 425 milhes 
Alan Rodrigues, Pedro Marcondes de Moura e Srgio Pardellas

PROPINODUTO - Segundo integrantes do MP e do Cade, seis projetos de trem e metr investigados apresentaram sobrepreo de 30% 

Na ltima semana, ISTO publicou documentos inditos e trouxe  tona o depoimento voluntrio de um ex-funcionrio da multinacional alem Siemens ao Ministrio Pblico. Segundo as revelaes, o esquema montado por empresas da rea de transporte sobre trilhos em So Paulo para vencer e lucrar com licitaes pblicas durante os sucessivos governos do PSDB nos ltimos 20 anos contou com a participao de autoridades e servidores pblicos e abasteceu um propinoduto milionrio que desviou dinheiro das obras para polticos tucanos. Toda a documentao, inclusive um relatrio do que foi revelado pelo ex-funcionrio da empresa alem, est em poder do Conselho Administrativo de Defesa Econmica (Cade), para quem a Siemens  r confessa por formao de cartel  vem denunciando desde maio de 2012 as falcatruas no Metr e nos trens paulistas, em troca de imunidade civil e criminal para si e seus executivos. At semana passada, porm, no se sabia quo rentvel era este cartel.

Ao se aprofundarem, nos ltimos dias, na anlise da papelada e depoimentos colhidos at agora, integrantes do Cade e do Ministrio Pblico se surpreenderam com a quantidade de irregularidades encontradas nos acordos firmados entre os governos tucanos de So Paulo e as companhias encarregadas da manuteno e aquisio de trens e da construo de linhas do Metr e de trens. Uma das autoridades envolvidas na investigao chegou a se referir ao esquema como uma fabulosa histria de achaque aos cofres pblicos, num enredo formado por pessoas-chaves da administrao  entre eles diretores do metr e da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM) , com participao especial de polticos do PSDB, os principais beneficirios da tramoia. Durante a apurao, ficou evidente que o desenlace dessa trama  amargo para os contribuintes paulistas. A investigao revela que o cartel superfaturou cada obra em 30%.  o mesmo que dizer que os governantes tucanos jogaram nos trilhos R$ 3 de cada R$ 10 desembolsado com o dinheiro arrecadado dos impostos. Foram analisados 16 contratos correspondentes a seis projetos. De acordo com o MP e o Cade, os prejuzos aos cofres pblicos somente nesses negcios chegaram a RS 425,1 milhes. Os valores, dizem fontes ligadas  investigao ouvidas por ISTO, ainda devem se ampliar com o detalhamento de outros certames vencidos em So Paulo pelas empresas integrantes do cartel nesses e em outros projetos.

Entre os contratos em que o Cade detectou flagrante sobrepreo est o de fornecimento e instalao de sistemas para transporte sobre trilhos da fase 1 da Linha 5 Lils do metr paulista. A licitao foi vencida pelo consrcio Sistrem, formado pela empresa francesa Alstom, pela alem Siemens juntamente com a ADtranz (da canadense Bombardier) e a espanhola CAF. Os servios foram orados em R$ 615 milhes. De acordo com testemunhos oferecidos ao Cade e ao Ministrio Pblico, esse contrato rendeu uma comisso de 7,5% a polticos do PSDB e dirigentes da estatal. Isso significa algo em torno de R$ 46 milhes s em propina. A Alstom coordenou um grande acordo entre vrias empresas, possibilitando dessa forma um superfaturamento do projeto, revelou um funcionrio da Siemens ao MP. Antes da licitao, a Alstom, a ADtranz, a CAF, a Siemens, a TTrans e a Mitsui definiram a estratgia para obter o maior lucro possvel. As companhias que se associaram para a prtica criminosa so as principais detentoras da tecnologia dos servios contratados.

O responsvel por estabelecer o escopo de fornecimento e os preos a serem praticados pelas empresas nesse contrato era o executivo Masao Suzuki, da Mitsui. Sua empresa, no entanto, no foi a principal beneficiria do certame. Quem ficou com a maior parte dos valores recebidos no contrato da fase 1 da Linha 5 Lils do Metr paulista foi a Alstom, que comandou a ao do cartel durante a licitao. Mas todas as participantes entraram no caixa da propina. Cada empresa tinha sua prpria forma de pagar a comisso combinada com integrantes do PSDB paulista, segundo relato do delator e ex-funcionrio da Siemens revelado por ISTO em sua ltima edio. Nesse contrato especfico, a multinacional francesa Alstom e a alem Siemens recorreram  consultoria dos lobistas Arthur Teixeira e Srgio Teixeira. Documentos apresentados por ISTO na semana passada mostraram que eles operam por meio de duas offshores localizadas no Uruguai, a Leraway Consulting S/A e Gantown Consulting S/A. Para no deixar rastro do suborno, ambos tambm se valem de contas em bancos na Sua, de acordo a investigao.

PEDIDO DE CPI - Lder do PT na Assembleia Legislativa, Luiz Claudio Marcolino, trabalha pela abertura de inqurito

No contrato da Linha 2 do Metr, o superfaturamento identificado at agora causou um prejuzo estimado em R$ 67,5 milhes ao errio paulista. As licitaes investigadas foram vencidas pela dupla Alstom/Siemens e pelo consrcio Metrosist, do qual a Alstom tambm fez parte. O contrato executado previa a prestao de servios de engenharia, o fornecimento, a montagem e a instalao de sistemas destinados  extenso oeste da Linha 2 Verde. Orado inicialmente em R$ 81,7 milhes, s esse contrato recebeu 13 reajustes desde que foi assinado, em outubro de 1997. As multinacionais francesa e alem ficaram responsveis pelo projeto executivo para fornecimento e implantao de sistemas para o trecho Ana Rosa/ Ipiranga. A Asltom e a Siemens receberam pelo menos R$ 143,6 milhes para executar esse servio.

O sobrepreo de 30% foi estabelecido tambm em contratos celebrados entre as empresas pertencentes ao cartel e  estatal paulista CPTM. Entre eles, o firmado em 2002 para prestao de servios de manuteno preventiva e corretiva de dez trens da srie 3000. A Siemens ganhou o certame por um valor original de R$ 33,7 milhes. Em seguida, o conglomerado alemo subcontratou a MGE Transportes para servios que nunca foram realizados. A MGE, na verdade, serviu de ponte para que a Siemens pudesse efetuar o pagamento da propina de 5% acertada com autoridades e dirigentes do Metr e da CPTM. O dinheiro da comisso  cerca de R$ 1,7 milho s nessa negociata, segundo os investigadores  mais uma vez tinha como destino final a alta cpula da estatal e polticos ligados ao PSDB. A propina seria distribuda, segundo depoimento ao Cade ao qual ISTO teve acesso, pelo diretor da CPTM, Luiz Lavorente. Alm da MGE, a Siemens tambm recorreu  companhia japonesa Mitsui para intermediar pagamentos de propina em outras transaes. O que mais uma vez demonstra o quo prxima eram as relaes das empresas do cartel que, na teoria, deveriam concorrer entre si pelos milionrios contratos pblicos no setor de transportes sobre trilhos. O resultado da parceria criminosa entre as gigantes do setor pareceu claro em outros 12 contratos celebrados com a CPTM referentes s manutenes dos trens das sries 2000 e 2100 e o Projeto Boa Viagem, que j foram analisados pelo CADE. Neles, foi contabilizado um sobrepreo de aproximadamente R$ 163 milhes. 
 No  por acaso que as autoridades responsveis por investigar o caso referem-se ao esquema dos governos do PSDB em So Paulo como uma fabulosa histria. O superfaturamento constatado nos contratos de servios e oferta de produtos s estatais paulistanas Metr e a Companhia Paulista de Trens Metropolitanos [CPTM] supera at mesmo os ndices mdios calculados internacionalmente durante a prtica deste crime. Clculos da Organizao para Cooperao e Desenvolvimento Econmico  OCDE, por exemplo, apontam que os cartis ocasionam um prejuzo aos cofres pblicos de 10% a 20%. No caso destes 16 contratos, a combinao de preos e direcionamentos realizados pelas companhias participantes da prtica criminosa levaram a um surpreendente rombo de 30% aos cofres paulistas. 

 Diante das denncias, na ltima semana o PT e outros partidos oposicionistas em So Paulo passaram a se movimentar para tentar aprovar a instalao de uma CPI. O governador Geraldo Alckmin diz querer que as denncias do Metr e da CPTM sejam apuradas. Ento, que oriente a sua bancada a protocolar o pedido de CPI, pelo menos, desta vez, props o lder do PT na Assembleia paulista, Luiz Cludio Marcolino.  flagrante que os contratos precisam ser revisados. Temos de ter transparncia com o dinheiro pblico independente de partido, diz ele. Caso a bancada estadual do PT no consiga aprovar o pedido, por ter minoria, a sigla tentar abrir uma investigao na Cmara Federal. No podemos deixar um assunto desta gravidade sem esclarecimentos. Ainda mais quando se trato de acusaes to contundentes de desvios de verbas pblicas, afirmou o deputado Devanir Ribeiro (PT-SP). O que se sabe at agora j  suficiente para ensejar um inqurito. Afinal, trata-se de um desvio milionrio de uma das principais obras da cidade mais populosa do Pas e onde se concentra o maior oramento nacional. Se investigada a fundo, a histria do achaque de 30% aos cofres pblicos pode trazer ainda mais revelaes fabulosas.

Queima de arquivo
 Uma pasta amarela com cerca de 200 pginas guardada na 1 Vara Criminal do Frum da cidade de Itu, interior paulista, expe um lado ainda mais sombrio das investigaes que apuram o desvio milionrio das obras do metr e trens metropolitanos durante governos do PSDB em So Paulo nos ltimos 20 anos. Trata-se do processo judicial 9900.98.2012 que investiga um incndio criminoso que consumiu durante cinco horas 15.339 caixas de documentos e 3.001 tubos de desenhos tcnicos. A papelada fazia parte dos arquivos do metr armazenados havia trs dcadas. Entre os papeis que viraram cinzas esto contratos assinados entre 1977 e 2011, laudos tcnicos, processos de contratao, de incidentes, propostas, empenhos, alm de relatrios de acompanhamento de contratos de 1968 at 2009. Sob segredo de Justia, a investigao que poder ser reaberta pelo Ministrio Pblico, diante das novas revelaes sobre o caso feitas por ISTO, acrescenta novos ingredientes s j contundentes denncias feitas ao Cade pelos empresrios da Siemens a respeito do escndalo do metr paulista. Afinal, a ao dos bandidos pode ter acobertado a distribuio de propina, superfaturamento das obras, servios e a compra e manuteno de equipamentos para o metr paulista.

 Segundo o processo, na madrugada do dia 9 de julho do ano passado, nove homens encapuzados e armados invadiram o galpo da empresa PA Arquivos Ltda, na cidade de Itu, distante 110 km da capital paulista, renderam os dois vigias, roubaram 10 computadores usados, espalharam gasolina pelo prdio de 5 mil m e atearam fogo. No sobrou nada. Quatro meses depois de lavrado o boletim de ocorrncia, n 1435/2012, a polcia paulista concluiu que o incndio no passou de um crime comum. As investigaes no deram em nada, admite a delegada de Policia Civil Milena, que insistiu em se identificar apenas pelo primeiro nome. Os homens estavam encapuzados e no foram identificados, diz a policial. Investigado basicamente como sumio de papis velhos, o incndio agora ganha ares de queima de arquivo. O incidente ocorreu 50 dias depois de entrar em vigor a Lei do Acesso  Informao, que obriga os rgos pblicos a fornecerem cpias a quem solicitar de qualquer documento que no seja coberto por sigilo legal, e quatro meses depois de comearem as negociaes entre o Cade e a Siemens para a assinatura do acordo de lenincia, que vem denunciando as falcatruas no metr e trens paulistas. No podemos descartar que a inteno desse crime era esconder provas da corrupo, entende o deputado Luiz Cludio Marcolino, lder do PT na Assembleia Legislativa do Estado.

Alm das circunstncias mais do que suspeitas do incndio, documentos oficiais do governo, elaborados pela gerncia de Auditoria e Segurana da Informao (GAD), n 360, em 19 de setembro passado, deixam claro que o galpo para onde foi levado todo o arquivo do metr no tinha as mnimas condies para a guarda do material. Cravado em plena zona rural de Itu, entre uma criao de coelhos e um pasto com cocheiras de gado, o galpo onde estavam armazenados os documentos no tinha qualquer segurana. Poderia ser facilmente acessado pelas laterais e fundos da construo. 

 De acordo com os documentos aos quais ISTO teve acesso, o governo estadual sabia exatamente da precariedade da construo quando transferiu os arquivos para o local. O relatrio de auditoria afirma que em 20 de abril de 2012 - portanto, trs dias depois da assinatura do contrato entre a PA Arquivos e o governo de Geraldo Alckmin - o galpo permanecia em obras e a empresa no estava preparada para receber as caixas do Metr. A comunicao interna do governo diz mais. Segundo o laudo tcnico do GAD, a empresa no possua instalaes adequadas para garantir a preservao do acervo documental. No havia sequer a climatizao do ambiente, item fundamental para servios deste tipo. 

 O prdio foi incendiado poucos dias depois da migrao do material para o espao. No quero falar sobre esse crime, disse um dos proprietrios da empresa, na poca do incndio, Carlos Ulderico Botelho. Briguei com o meu scio, sai da sociedade e tomei muito prejuzo. Esse incndio foi estranho. Por isso, prefiro ficar em silncio. Outra excentricidade do crime  que o fato s foi confirmado oficialmente pelo governo seis meses depois do ocorrido. Em 16 pginas do Dirio do Dirio Oficial, falou-se em sumio da papelada. Logo depois da divulgao do sinistro, o deputado estadual do PT, Simo Pedro, hoje secretrio de Servios da Prefeitura de So Paulo, representou contra o Governo do Estado no Ministrio Pblico Estadual. Acredita-se que os bandidos tenham provocado o incndio devido o lugar abrigar vrios documentos. Para o parlamentar, esse fato sairia da hiptese de crime de roubo com o agravante de causar incndio, para outro crime, de deliberada destruio de documentos pblicos, disse Simo, em dezembro passado. Procurados por ISTO, dirigentes do Metr de SP no quiseram se posicionar.


2. LUTA PELA MEMRIA DA DITADURA EST EM PERIGO
Conspirao sabotagem e estrelismo atrapalham as apuraes da comisso da verdade 
Josie Jeronimo

LONGE DE UMA RESPOSTA - O atentado  bomba no Rio-Centro, em 1981, ato terrorista dos militares contra a democratizao,  um dos vrios episdios  espera de investigao 

Nascida h 14 meses como um dos mais nobres projetos do governo Dilma Rousseff, de uns tempos para c a Comisso Nacional da Verdade transformou-se num ambiente de disputas internas, conspiraes permanentes e mesmo atos de sabotagem entre seus membros. Ciente disso, a presidenta Dilma decidiu intervir na comisso e planeja convocar o colegiado de coordenadores para uma conversa reservada, em que pretende cobrar explicaes e discutir caminhos, na esperana de salvar uma ideia que custou meses de negociao com familiares de desaparecidos, militares aposentados, ministros e foras polticas de vrias famlias ideolgicas. 

 Sempre se soube que a investigao sobre a memria do regime militar seria alvo de crticas por parte de generais de pijama e de cobranas dos familiares de vtimas e iria mobilizar atenes no Pas inteiro. Estava claro tambm que os membros da comisso, escolhidos em maio de 2012, teriam de se empenhar, acima de tudo, em cumprir a obrigao de conhecer cada crime, cada violncia, em todos os detalhes. Episdios terrveis da histria do Pas, como o atentado  bomba no Rio-Centro, o mais ambicioso ato de terrorismo militar contra a democratizao, at hoje aguardam explicaes completas e definitivas sobre seus autores e as responsabilidades da cadeia de comando. 

 O trabalho de uma Comisso da Verdade, em qualquer parte do mundo,  assim mesmo. Consiste em pisar em terreno spero, ouvir os contrrios, dar voz a quem nunca teve  e depois construir, palavra por palavra, uma narrativa que no foi escrita. A questo  que era preciso encontrar um mtodo de trabalho coerente para dar conta de tarefa to nobre e delicada  e os membros da comisso nunca se entenderam a respeito disso.

Pouco a pouco, aquela atividade, que deveria buscar a consulta externa, o depoimento jamais obtido e o episdio nunca esclarecido, transformou-se numa disputa tpica de posies, uma pequena guerra de prestgio e fora  em reunies e embates a portas fechadas.  possvel traduzir o exguo trabalho externo da comisso por sua contabilidade. Com oramento de R$ 10 milhes para tocar o servio, at agora ela gastou uma modesta quantia de R$ 200 mil. 

 Vrios fatores ajudam a explicar essa situao. Um deles envolve a forma de organizao. Em vez de estimular acordos e pactos construtivos, a ideia de estabelecer um sistema de coordenao por rodzio, atravs do qual cada membro da coordenao assumiria o comando dos trabalhos por trs meses, logo passando o basto para um novo sucessor, s contribuiu para acirrar disputas, contradies e conflitos. Inicialmente, a indicao do antigo corregedor do Conselho Nacional de Justia, o juiz Gilson Dipp, para integrar a comisso, trazia um propsito positivo. Esperava-se que, com sua liderana e capacidade de composio, Dipp pudesse garantir uma certa ordem aos trabalhos. Mas, primeiro coordenador, Dipp adoeceu e teve de licenciar-se. Acabou substitudo por Claudio Fontelles, procurador-geral da Repblica entre 2003 e 2005, que acabaria acumulando dois mandatos consecutivos. Primeiro, como reserva de Dipp e, depois, como coordenador pleno. Quando Dipp recuperou a sade, preferiu pedir para ir embora, deixando uma vaga em aberto, que at agora no foi preenchida. Com uma postura diferente da do antecessor, Fontelles colecionou brigas internas e acabou pedindo demisso. Saiu batendo a porta. Mas admite retornar, sob determinadas condies. 

 O conflito da Comisso da Verdade j havia produzido vrios episdios desgastantes que lembram guerras de poder numa firma, num partido poltico ou num sindicato, mas chegou a um ponto mximo no final de maio. Empossada na coordenao, a advogada Rosa Cardoso, que defendeu Dilma e o deputado Jos Genoino durante o regime militar, enviou uma mensagem  prpria presidenta da Repblica. Rosa queria, simplesmente, que a presidenta demitisse trs de seus adversrios internos da Comisso  o advogado Paulo Srgio Pinheiro, tarimbado integrante de misses de direitos humanos da ONU, a psicanalista Maria Rita Kehl e o advogado e escritor Jos Paulo Cavalcanti. A presidente respondeu atravs do assessor Giles Azevedo, que telefonou a Pinheiro e lhe disse que Dilma estava satisfeita com os trabalhos e com a atuao de seus membros. Mas a tenso no terminou. Em nova mensagem endereada  presidenta, ainda sem resposta, Rosa solicitou a Dilma que fizesse uma opo definitiva, escolhendo quem deve ficar e quem deve sair.

RODZIO IMPRODUTIVO - O juiz Gilson Dipp, primeiro comandante dos trabalhos que se perderam com a troca de direo

At hoje  mais fcil relatar as brigas entre os integrantes da comisso do que oferecer uma explicao racional para tantas divergncias. A composio da coordenao mostrava um esforo para agrupar personalidades que, por vrios caminhos, expressam o universo democrtico brasileiro. H coordenadores com slida biografia tucana, mas tambm petistas e pelo menos uma voz que simpatiza com o Movimento Sem-Terra. Mas eles esto separados por uma divergncia que no tem relao direta com suas linhagens polticas. Resumindo de forma simples um debate mais complicado, pode-se dizer que Rosa e Fontelles pretendem transformar os trabalhos da comisso numa etapa preparatria para uma reviso da Lei da Anistia que permita colocar os acusados por tortura e mortes no banco dos rus. Os outros, que tm como maior expoente Pinheiro, consideram que a comisso deve contar uma histria do perodo, a mais completa que j foi escrita, e deixar a deciso para o conjunto da sociedade. Se a Lei de Anistia deve ser revista, esse no  um problema da comisso, raciocinam. 

 Como era de se imaginar, a cada viso corresponde um mtodo de trabalho. Quando assumiu a coordenao, Pinheiro procurou agir de acordo com seu ponto de vista. Preferiu a consulta a arquivos, a coleta de depoimentos reservados, quando esse era o desejo da testemunha. Rosa e Fontelles, que acumularam um perodo mais longo na coordenao dos trabalhos, tambm agiram, mas pelo outro lado. Fiel  ideia de que seria conveniente criar comoo e exercer um papel pedaggico junto  populao, Fontelles tentou divulgar denncias de grande impacto. Como ideia, era uma soluo tentadora. Mas no se possua matria-prima correspondente a tanta ambio.

Durante uma audincia pblica com o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, comandante do DOI-Codi paulista e um dos smbolos do perodo, Fontelles criou um impacto apenas passageiro. Disse que trazia um documento indito sobre a morte de 50 presos ocorrida na repartio militar sob o comando de Ustra. O documento, alm de no ser indito (havia sido reproduzido pelo prprio Ustra em seu livro), era repleto de imprecises. Em outro momento, Fontelles anunciou em entrevista que possua revelaes relevantes sobre a morte do deputado Rubens Paiva, sequestrado em casa, na frente da mulher e dos filhos. Nada havia, porm, que no fosse do conhecimento de quem pesquisa o assunto. 

 A Comisso da Verdade tentou queimar etapas e foi assim que acabou chegando a essa encruzilhada complexa. Antes de mergulhar nos arquivos disponveis  que so mais numerosos e frteis do que se supe , seus integrantes ingressaram no debate posterior, sobre o destino de eventuais descobertas. Elas podem ficar nos livros ou podem mudar a histria. Mas esse  um debate posterior, para o Pas resolver. A Comisso da Verdade deve ao Brasil um pedao de sua histria que jamais foi contado. Em posio intelectualmente privilegiada, seus integrantes dispem da chance nica de ouvir testemunhas, confrontar verses e restabelecer o fio interrompido de um passado que convm conhecer para que nunca seja repetido. Basta isso e estar muito bem-feito.


3. NORA PROTEGIDA
s vsperas de dar  luz o neto de Renan Calheiros, a veterinria Paula Meschesi foi nomeada para o Senado com salrio de R$ 17 mil. Em 2011 e 2012, sua me e irm tambm garantiram emprego na Casa 
Josie Jeronimo

O contracheque da veterinria Paula Meschesi mostra que no ms de junho seus rendimentos brutos chegaram a R$ 26,7 mil, somados o salrio, a antecipao da gratificao natalina e o auxlio pr-escolar. Especialista em cincias biolgicas, ela trabalha na secretaria de Educao  Distncia do Senado como coordenadora de dois cursos online intitulados Fundamentos da Administrao Pblica e Excelncia no Atendimento, que ensina alcanar a eficcia no atendimento por telefone. O emprego de Paula  o cargo dos sonhos para muitos concurseiros que lotam as aulas de preparatrios para conseguir uma vaga no servio pblico. Mas, ao contrrio desses aspirantes ao funcionalismo, a veterinria conseguiu o salrio base de R$ 17,1 mil sem passar por nenhum processo seletivo. Paula Meschesi foi nomeada no dia 21 de julho de 2006 por um daqueles famigerados atos secretos do ex-diretor do Senado, Agaciel Maia. Na poca, grvida e casada com Rodolfo Calheiros, filho do atual presidente do Senado, Renan Calheiros, que naquele ano tambm presidia a Casa. Tudo leva a crer que a nomeao da nora de Renan foi feita s pressas, porque quela altura a gravidez estava num estgio bastante avanado. Uma semana depois de efetivada no cargo, a veterinria pediu uma licena de 120 dias para dar  luz o neto de Renan, Renzo Calheiros. 

PRIVILEGIADA - Me do neto de Renan, Paula est no Senado desde 2006

Podem acusar Renan de tudo, menos de no ter sido generoso com a famlia da me de seu neto. Em fevereiro de 2011, menos de cinco anos depois de garantir emprego no Senado  sua nora, Renan nomeou a me dela, a bela Mnica Meschesi, para dar expediente em seu gabinete. Na ocasio, Renan no era mais presidente do Senado, e sim lder do PMDB na Casa. No ano passado, de volta ao comando do Congresso, Renan fez mais. Articulou um emprego para a tia do seu neto Renzo. Irm de Paula, Eduarda Meschesi entrou para o Senado pela porta da terceira-secretaria da Casa. Em fevereiro desse ano, foi transferida para a quarta-secretaria. A jovem funcionria tem regime especial de frequncia e no  obrigada a registrar presena nos pontos digitais espalhados pelas dependncias do Senado.

TUDO EM CASA - Mnica ( esq.) e Eduarda Meschesi trabalham, respectivamente, na liderana do PMDB e na quarta-secretaria

Atualmente, a me do neto de Renan encontra-se rompida com o filho do presidente do Senado, mas engana-se quem pensa que a famlia Meschesi esteja desamparada. Pelo contrrio. Tanto a nora de Renan quanto sua me e irm permanecem nos respectivos cargos. O salrio de Mnica no ms passado foi de R$ 2 mil. J o salrio de Eduarda foi de R$ 1,6 mil e mais R$ 700 em auxlios. Em junho, os rendimentos das trs integrantes da famlia Meschesi, somados, ultrapassaram a casa dos R$ 30 mil.

CANETA SELETIVA - Renan diz que s  responsvel por uma nomeao, a da av de seu neto

Procurado pela ISTO, Renan, por meio de sua assessoria, se responsabilizou apenas pela nomeao da av de seu neto. J Paula Meschesi, alegou Renan, no foi nomeada por ele, mas pelo ex-senador Adelmir Santana. Ou seja, no mnimo, essa situao se enquadraria num caso clssico de nepotismo cruzado.

